Quem inventou o baralho? A história do baralho de 52 cartas
A história do baralho de 52 cartas: um resumo
As cartas de baralho surgiram na China entre os séculos IX e XIII d.C. Então, difundiram-se para a Pérsia e o Egito islâmico e acabaram chegando até a Europa, passando pela Península Ibérica, no século XIV. O primeiro baralho europeu, chamado de latino, foi inspirado no baralho árabe (também conhecido como mouro). No século XV, novos modelos e configurações regionais apareceram em diferentes partes da Europa. Por volta de 1480, os franceses passaram a utilizar algumas características do modelo alemão e daí nasceu o baralho de 52 cartas, adaptado para uma fabricação mais econômica. Mais tarde, no século XIX, fabricantes britânicos e americanos modernizaram o design do baralho francês para melhorar o conforto do jogador e a durabilidade das cartas. Assim nasceu o baralho padrão de 52 cartas, também conhecido como padrão anglo-americano, o mais usado no mundo nos dias de hoje.
O baralho de 52 cartas ficou popular através de jogos como o bridge, o pôquer e a paciência online, sendo amplamente usado por jogadores do mundo todo. O conjunto tem dois naipes pretos, paus (♣) e espadas (♠), e dois naipes vermelhos, ouros (♦) e copas (♥). Cada naipe inclui três cartas de figuras, o rei, a dama e o valete, e dez cartas numeradas, que vão de um (ás) até dez. As cartas têm os cantos levemente arredondados, com um índice no qual aparecem o símbolo do naipe e o valor da carta (2–10), ou uma letra para as três figuras: o rei (K), a dama (Q) e o valete (J), bem como para o ás (A). As letras correspondem às iniciais de King, Queen, Jack e Ace, os nomes dessas cartas em inglês. Todas as cartas são de desenho espelhado (ou seja, as metades superior e inferior da carta refletem-se mutuamente), e as cartas de figuras mostram apenas a cabeça e a parte superior do tronco dos membros da corte. Já as cartas numeradas exibem o número de símbolos do naipe correspondente, o que indica o seu valor (Figura 1). Você já parou para pensar como e quando tudo isso ganhou esse formato? Quem inventou os baralhos? De onde vieram os símbolos dos naipes? Por que o valete aparece junto com o rei e a dama? Neste artigo você encontra as respostas para todas essas perguntas e muitas outras enquanto exploramos a história do baralho de 52 cartas.
A origem das cartas de jogar chinesas
As pessoas sempre gostaram de se divertir, inclusive nos tempos mais antigos. Nesse sentido, não somos tão diferentes dos nossos antepassados. É incrível pensar que, nas nossas noites de jogatina, ainda repetimos as ações que os nossos ancestrais faziam há milhares de anos na Índia, quando lançavam o primeiro dado de seis lados (Figura 2), o ancestral mais antigo das cartas de baralho. Os dados chegaram à China provavelmente já no século II a.C., e mais de mil anos depois, algum jogador criativo uniu dois dados e criou uma peça de dominó. Depois que o formato de peça se consolidou, foi só uma questão de tempo para que a peça passasse a ser feita de papel e se transformasse em uma carta.1
Quando pensamos em baralhos no Ocidente, quase sempre são as cartas de papel que nos vêm à mente. Mas nos jogos chineses, o material da “peça” não era assim tão determinante. Muitos jogos como o dominó, por exemplo, eram jogados com peças feitas de ossos, marfim ou papel. E, no chinês moderno, o mesmo termo é muitas vezes utilizado para se referir a essas peças: pái (e zhipái, que significa “peças de papel”, ou seja, cartas).2 Dentre esses materiais empregados para fabricar essas “peças” chinesas, o papel é um dos mais frágeis e perecíveis. E talvez seja por isso que a carta chinesa mais antiga que se conhece (Figura 3) só seja datada de uma época relativamente tardia, por volta de 1400 d.C. Ela foi encontrada em 1905 perto de Turfã, no Noroeste da China, pelo arqueólogo alemão Albert von Le Coq.3 Entretanto, muitos estudiosos acreditam que os baralhos tenham sido inventados até 500 anos antes disso, por volta dos séculos IX ou X.4
Mas será que foi isso mesmo? A principal evidência que sustenta essa ideia é a descrição, feita por Ouyang Xiu, do “jogo das folhas” (葉子), um jogo do século IX associado à dinastia Tang.5 Ouyang foi um historiador do século XI que relatou que, na época Tang, o formato mais comum de livro na China era o de rolo. Só que isso não era nem um pouco prático, especialmente durante o jogo, quando os jogadores precisavam consultar as anotações o tempo todo. Para evitar as pausas longas necessárias para desenrolar o rolo inteiro para achar a informação desejada e depois enrolar tudo de novo, os chineses inventaram um tipo de livro de consulta mais parecido com um caderno moderno. As páginas desse livro eram chamadas de yèzi, que significa “folhas”6 e muitos pesquisadores acreditam que, nesse contexto, essas “folhas” eram cartas de jogar. Por outro lado, o especialista Andrew Lo discorda dessa interpretação e sugere que o yèzi do século IX refere-se apenas às páginas de um livro de consulta usado durante um jogo de tabuleiro conhecido como “o jogo das folhas”. Ele também destaca que a ocorrência mais antiga do termo confirmado e ainda em uso para “cartas de baralho de papel”, zhipái (紙牌), aparece em um processo judicial de 1294. Esse processo foi registrado no “Código Dinástico da Administração Sagrada da Grande Dinastia Yuan”, concluído em 1320.7 Portanto, essas datas são bem mais próximas da carta de Turfã, do século XIV, do que da suposta origem das cartas no século IX.
No fim das contas, a pergunta de quando os chineses inventaram as suas cartas de jogar depende de como se interpreta o termo yèzi da dinastia Tang. Se ele se referir às “cartas de baralho”, então a sua invenção remete ao século IX. Mas, se em vez disso significar “páginas de livros”, aí a forma mais antiga conhecida das cartas chinesas pode ser rastreada, no máximo, aos séculos XIII e XIV.
As cartas de baralho egípcias dos mamelucos
Há pouquíssimos vestígios dos baralhos mais antigos do mundo islâmico. A Coleção Keir, hoje no Museu de Arte de Dallas, preserva dois fragmentos de cartas numeradas com um estilo que remete ao Egito do século XIII. Essas cartas pertencem a um naipe que pode parecer exótico para quem está acostumado com o baralho moderno padrão de 52 cartas: o naipe de taças é simbolizado por cálices finamente trabalhados (Figura 4).8 Esse estilo surgiu durante um período turbulento, marcado por mudanças no poder. Em meio ao caos da Sétima Cruzada, a dinastia Aiúbida, que governava o Egito, chegou ao fim. Em 1250, o sultanato egípcio passou para as mãos dos mamelucos, antigos guerreiros escravizados a serviço dos aiúbidas, que permaneceram no poder até 1517.
Perto do fim do seu reinado, o sultanato dos mamelucos produziu o baralho mais bem preservado do mundo árabe que existe até hoje. Esse conjunto é conhecido como “cartas mamelucas”, datado do século XV, embora inclua cinco cartas que podem ser de um período um pouco anterior ou posterior.9 As cartas desse baralho (Figura 5), que estão hoje no acervo do Museu do Palácio de Topkapı, em Istambul, despertaram grande interesse entre os historiadores. Alguns veem essas cartas como um possível elo entre os baralhos chineses e os europeus, já que apresentam semelhanças com ambos os modelos. Originalmente, o baralho de Topkapı continha 52 cartas (das quais apenas 48 sobreviveram), divididas em quatro naipes: moedas, tacos de polo, taças e espadas. Cada naipe tinha 10 cartas numeradas e três cartas de figuras: o rei (malik), o vice-rei (nā’ib mālik) e o segundo vice-rei (thānī nā’ib).10
Um dos baralhos chineses, o das chamadas “cartas de naipes monetários” (money-suited cards, em inglês), foi descrito pela primeira vez no século XV. Diferenciava-se por não ter cartas de figuras e por conter quatro naipes: cash (moedas chinesas com um furo quadrado no centro), cordões de cash, miríades de cordões e dezenas de miríades (Figura 6).11 Alguns autores levantaram a hipótese de que os mamelucos possam ter reinterpretado os símbolos dos naipes chineses para criar o seu próprio sistema de naipes.12
No entanto, há dois argumentos que contradizem isso:
1)As cartas dos mamelucos do século XIII da Coleção Keir são cerca de 200 anos mais antigas do que os exemplares mais antigos do suposto precursor chinês.
2)Tanto o baralho de Topkapı quanto os textos árabes da época usam o termo kanjifah, de origem persa, para designar as cartas de baralho.
Portanto, tudo indica que os baralhos chegaram ao universo de língua árabe pela Pérsia – possivelmente a partir de uma tradição de origem chinesa.13
Há evidências de que os baralhos eram conhecidos no mundo árabe desde o século XIII, pelo menos; os exemplares egípcios preservados mais antigos são datados dessa época. Acredita-se que tenham chegado ao Egito vindos da Pérsia e que, por sua vez, os persas tenham adaptado suas cartas a partir do modelo chinês.
Os primeiros baralhos europeus
A referência mais antiga, embora bem breve, às cartas de baralho na Europa vem de um dicionário de rimas compilado em catalão pelo poeta Jaume March em 1371. Trata-se de apenas uma palavra – naip – termo que ainda hoje é usado em catalão para se referir a “cartas de baralho”14 e que muito provavelmente deriva do árabe nā’ib (نَائِب), que significa “substituto” (ou “vice”). Curiosamente, nā’ib aparece no nome de duas cartas de figuras do baralho mameluco de Topkapı: o vice-rei (nā’ib mālik) e o segundo vice-rei (thānī nā’ib). É fácil imaginar que, no século XIV, os catalães tenham usado esse termo árabe inicialmente apenas para se referir às cartas de figuras e, aos poucos, tenham ampliado o seu sentido para falar do jogo ou das cartas em geral. Ainda assim, o uso do termo nā’ib, relacionado às cartas, na Catalunha medieval tem duas implicações importantes:
1)Os europeus devem ter adotado as cartas de baralho a partir de povos de língua árabe.
2)Baralhos no estilo de Topkapı devem ter sido produzidos no universo de língua árabe já no século XIV, embora não haja evidência material de cartas de figuras desse período.
Um registro nas crônicas da cidade italiana de Viterbo indica que os italianos do século XIV reconheciam a origem árabe das cartas de baralho. Um cronista anônimo observa: “No ano de 1379, foi trazido para Viterbo o jogo de cartas que vem do país dos sarracenos e que eles chamam de Naib [em árabe].”15
Então dá para dizer que os europeus importaram os baralhos diretamente do Egito mameluco? Tudo indica que o ponto de contato tenha sido, na verdade, a Península Ibérica,16 que, do século VIII ao XV, estava sob o domínio árabe (que se tornava cada vez menor), e cujos habitantes eram chamados de “mouros” pelos europeus. A Península Ibérica, por manter vínculos duradouros e estreitos com o mundo árabe, funcionou como um corredor natural pelo qual inovações práticas e valorizadas se espalhavam pela Europa. Assim como a evidência em texto mais antiga sobre os baralhos, as cartas mais antigas efetivamente descobertas em território europeu também são da Catalunha. Simon Wintle, um entusiasta da história dos baralhos, encontrou o material no acervo do Instituto Municipal de História, em Barcelona, onde permaneceu por décadas, praticamente desconhecido do grande público. Trata-se de uma folha ainda sem recorte, com cartas sem coloração, datada do começo do século XV e produzida no estilo árabe. Nelas aparecem símbolos de naipes muito parecidos com os das cartas dos mamelucos: moedas, bastões, taças e espadas. O modelo original do qual o artesão copiou os símbolos dos naipes devia ter tacos de polo, e não bastões. Mas o polo não era um esporte conhecido no mundo cristão, então ele acabou reproduzindo os desenhos sem levar em conta o que eles representavam de fato (Figura 7).17
Depois que os catalães e os italianos pegaram o gosto pelo “novo” jogo, os baralhos se espalharam com uma velocidade impressionante por toda a Europa ocidental. As primeiras menções a baralhos em fontes históricas datam dos anos 1370 em Florença e Siena (Itália), Paris (França), Basileia (Suíça) e na província de Brabante (Bélgica). A partir daí as referências se multiplicaram ao longo das duas décadas seguintes.18 Não demorou para que os europeus começassem a produzir os seus próprios baralhos. Eles testaram diferentes designs e composições de cartas e, aos poucos, criaram sistemas de naipes regionais, alguns ainda usados até hoje. O primeiro desses arranjos foi o baralho latino (usado na Espanha, Portugal e Itália),19 e um de seus exemplares mais antigos é o baralho catalão “mouro”, datado de 1400–1420 que está guardado no Museu de Baralhos de Fournier, em Álava, Espanha (Figura 8). Ele mantém os símbolos dos naipes árabes – moedas, taças, bastões e espadas – e também apresenta figuras humanas em várias posições: em pé, sentadas ou a cavalo. Já no baralho de Topkapı, o rei, o vice-rei e o segundo vice-rei não apareciam como figuras humanas, mas as cartas apresentavam inscrições para identificá-los. A representação visual de pessoas foi um divisor de águas na história dos baralhos, pois marcou a transição do design árabe original para os baralhos europeus com figuras humanas – uma evolução que, mais tarde, daria origem a diversos padrões, incluindo o baralho de 52 cartas amplamente utilizado hoje em dia.
As cartas de baralho chegaram à Europa antes de 1370, vindas do mundo árabe e passando pela Espanha. O baralho latino foi o primeiro sistema europeu original de naipes. Ele preservou os símbolos dos naipes árabes (trocando apenas o taco de polo por bastões) e passou a incluir figuras humanas nas cartas de figuras.
A história do baralho moderno: o modelo francês
A esta altura, nossa história se aproxima de seu ponto culminante – a criação do baralho anglo-americano, o baralho padrão de 52 cartas, que acabou se espalhando pelo mundo todo. Ele se originou das cartas de naipes franceses, criadas no século XV. Diferentemente do que ocorreu em períodos mais antigos, quando a história dos baralhos foi pouco documentada, há muitos registros em textos e objetos da Europa do século XV. Curiosamente, a maioria das cartas de baralho desse período sobreviveu até hoje justamente por estarem com algum defeito ou muito desgastadas. Por isso, elas acabavam sendo reaproveitadas como reforço em encadernações.20 Descobertas assim são mais um ótimo motivo para você ler livros antigos!
No século XV, vários baralhos regionais surgiram na Europa, incluindo os modelos espanhol, alemão e francês. A seguir, vamos falar de cada um deles.
O sistema espanhol de naipes foi criado pelos franceses. Ao longo de quase todo o século XV, os fabricantes franceses produziram baralhos de naipes latinos para o mercado espanhol e, ao mesmo tempo, foram modificando gradualmente o modelo latino. Em 1460, o design das cartas já tinha sido simplificado, e os reis, que antes eram retratados sentados, passaram a ser representados em pé.21 Com o tempo, surgiu o que hoje conhecemos como o sistema espanhol de naipes:
•os naipes ouros, paus, copas e espadas, baseados no modelo árabe;
•três cartas de figuras que representavam membros da corte real medieval: um rei em pé, um cavaleiro montado e uma sota também em pé;
•nove cartas numeradas de 1 a 9;
•um total de 48 cartas no baralho (Figura 9).22
Por volta da mesma época (cerca de 1460), depois de testar diferentes baralhos e símbolos de naipes por várias décadas, entre os quais estavam os populares naipes associados à caça (Figura 10), os alemães finalmente estabeleceram o seu sistema padrão de naipes: o baralho germânico. Eles acabaram adotando símbolos diferentes dos latinos e, portanto, dos árabes: folhas, corações, bolotas e sinos.23 Ainda assim, como no modelo latino original (e, antes dele, no árabe), o sistema alemão também contava com três cartas de figuras masculinas: o rei e duas figuras inferiores – o Ober (“o superior”) e o Unter (“o inferior”) (Figura 11). Todas as figuras seguravam o símbolo do naipe nas mãos, e essas duas figuras se distinguiam pelos gestos: o Ober apontava as mãos para cima, e o Unter, para baixo. O baralho era composto por 48 cartas, mas, ao contrário do conjunto espanhol, incluía a carta de dez símbolos em vez da carta de um símbolo (o ás).24 Os baralhos espanhol e alemão continuam em uso em suas respectivas regiões até hoje, em uma forma relativamente inalterada – são remanescentes dos baralhos europeus mais antigos.25
Por fim, por volta de 1480, os franceses estavam prontos para criar o seu próprio sistema de naipes, com o objetivo de fabricar as cartas da maneira mais rápida e barata possível. Eles perceberam que os símbolos espanhóis eram complicados demais para desenhar e pintar usando estênceis – o método de ilustração de cartas preferido da época. Assim, os franceses adotaram os símbolos dos naipes alemães, mas padronizaram o formato, o tamanho e as cores. As folhas deram origem às espadas; as bolotas deram origem aos trevos de três folhas – paus; os sinos acabaram virando os losangos – ouros; e os corações não sofreram alterações (Figura 12). O rei em pé, que os franceses tinham criado para o mercado espanhol, e a sota funcionavam bem. Mas o cavaleiro montado era muito complicado para desenhar. Ao mesmo tempo, o Ober e o Unter dos alemães eram tão parecidos entre si que os jogadores mal conseguiam diferenciá-los. Essas dificuldades com as cartas de figuras masculinas abriram espaço para a dama em pé. A dama também foi uma criação dos alemães, mas já surgia em baralhos alternativos com quatro figuras, nos quais equivalia ao rei e era superior ao Ober e ao Unter. A dama entrou no lugar do cavaleiro nos baralhos franceses, surgindo então a combinação rei, dama e sota. E, em vez de serem segurados pelos membros da corte, como nos modelos anteriores, os símbolos dos naipes simplesmente pareciam flutuar no ar (Figura 13).
Com todas essas mudanças, os fabricantes franceses conseguiram voltar à composição original dos baralhos árabes pintados à mão: 52 cartas, com três figuras e 10 cartas numeradas de cada naipe. Os baralhos de 52 cartas não eram novidade na Europa medieval e no início do Renascimento. Inclusive, o único baralho completo do século XV que existe até hoje, o baralho de Cloisters, é justamente desse tipo. No entanto, com a chegada das técnicas de impressão e, em particular, da xilogravura, os fabricantes passaram a preferir os conjuntos de 48 cartas. As matrizes de xilogravura eram grandes blocos de madeira e ali os desenhos das cartas eram esculpidos para funcionar como carimbos. O artesão aplicava tinta nos blocos e os pressionava contra o papel. Desse modo, era fácil produzir 24 cartas em um bloco retangular (seis fileiras com quatro cartas em cada). Mas organizar 26 cartas no mesmo bloco era praticamente impossível! Assim, ao tentar imprimir um baralho de 52 cartas, 20 cartas seriam produzidas a mais do que o necessário, o que inevitavelmente encarecia a produção. Além do mais, como os símbolos dos naipes tinham formatos e tamanhos diferentes, era preciso usar vários estênceis para colori-los. Em um golpe de mestre, os franceses decidiram imprimir apenas as figuras – 12 por baralho, pois elas cabiam perfeitamente em um único bloco de xilogravura. Com a padronização dos símbolos dos naipes, não era mais necessário imprimir as cartas numeradas. Agora essas cartas podiam ser feitas de uma forma bem mais simples: bastava carimbar a carta com um estêncil. Com isso, a produção francesa ficou mais rápida, mais barata e acabou transformando o mercado de baralhos europeu.26
Por volta de 1480, os fabricantes franceses incorporaram a maior parte das características do baralho padrão moderno: um conjunto de 52 cartas, com espadas (♠), paus (♣), ouros (♦) e copas (♥), além da dama entre as três figuras. Essas mudanças tiveram como principal objetivo tornar a produção mais eficiente.
O baralho moderno mais popular: o modelo anglo-americano
O moderno baralho padrão de 52 cartas criado pelos franceses ainda precisou de alguns ajustes finais para tornar-se o modelo usado no mundo todo atualmente, tanto em jogos online como presenciais. Nos séculos XV e XVI, um dos mercados para cartas de naipes franceses produzidas na cidade de Rouen era a Inglaterra. E foram os britânicos que acabaram transformando o design dessas cartas até o século XVIII. A primeira mudança foi, na verdade, acidental. Com menos domínio no ofício, a qualidade do design caiu e alguns detalhes criados pelos artistas franceses foram interpretados de forma equivocada e acabaram ficando distorcidos.27 Compare o rei de copas fabricado em Rouen por volta de 1567 (Figura 14) com o equivalente britânico, produzido por volta de 1750 (Figura 15). Independentemente do valor artístico dessa versão mais recente, ela mostra a figura de um rei sem pernas e, em vez de empunhar um machado, parece que ele está enfiando uma espada na própria cabeça. Curiosamente, o rei de copas ainda aparece assim no baralho padrão de 52 cartas do século XXI (Figura 16) e isso lhe rendeu o apelido de “rei suicida”.
Mas a maior parte das mudanças britânicas foi motivada pelas necessidades práticas dos jogadores. Na virada do século XVIII para o XIX, os fabricantes britânicos começaram, aos poucos, a adotar uma novidade francesa relativamente recente: as cartas espelhadas (ou seja, com duas cabeças). Assim, os jogadores não precisavam mais virar as cartas de figuras, o que denunciava a mão do jogador aos seus oponentes.28 Outro problema para os jogadores sempre foi que eles não conseguiam ver o valor das cartas ao segurá-las em leque. Isso porque as cartas ainda não tinham os índices nos cantos. Embora a ideia dos índices com dois elementos – o símbolo do naipe e o valor – já fosse conhecida na Europa desde o século XV, levou mais de 400 anos para que ela passasse a aparecer de fato nos cantos das cartas. O fabricante americano Cyrus W. Saladee introduziu os índices nos cantos em 1864. E em 1874, a empresa mais influente da área na Inglaterra, a Goodall and Son, adotou os índices.29 A Goodall and Son também foi responsável pelos traços faciais que hoje associamos aos membros da corte nas cartas de figuras do baralho padrão de 52 cartas.30
Logo os americanos, liderados por Samuel Hart e por sua empresa, a New York Consolidated Card Co., superaram os britânicos e assumiram a liderança na produção de baralhos. Foi Samuel Hart quem teve a ideia de arredondar os cantos das cartas para evitar que se desgastassem tão rápido.31 Em 1864, ele percebeu que a abreviação Kn, de Knave (nome inglês da sota, antecessora do valete), era facilmente confundida com o K de King (rei). Para evitar essa confusão, Hart substituiu o Kn pela letra J, de Jack, para designar o valete, contribuindo assim para popularizar esse nome. Jack não era exatamente uma novidade: já havia aparecido no século XVII no jogo de cartas All Fours. Mas a palavra Jack carregava uma conotação vulgar nessa época. Já no século XIX, Jack tinha perdido esse sentido pejorativo nos Estados Unidos e passou a ser usado para se referir a uma figura masculina genérica. Com isso, acabou ficando próximo do sentido original de Knave, ou seja, “menino ou homem jovem”.32
Finalmente, Samuel Hart inventou também outra carta famosa: o curinga.33 Mas essa é uma história que extrapola o baralho de 52 cartas.
No século XX, a xilogravura já tinha se tornado coisa do passado – as cartas passaram a receber um revestimento plástico para ficarem mais resistentes. Com as mudanças introduzidas pelos britânicos e americanos e a produção em massa, os baralhos de naipes franceses conquistaram o mundo. A grande popularidade do pôquer, do mexe-mexe e do bridge colaborou para deixar outros baralhos europeus e asiáticos em segundo plano. Mas isso não extinguiu os modelos tradicionais. China, Índia, Espanha, Alemanha e muitos outros países ainda mantêm os jogos locais e baralhos com design próprio.
O baralho anglo-americano moderno tomou forma no século XIX, graças a inovações introduzidas por fabricantes britânicos e americanos. Com base nos baralhos franceses, o novo modelo passou a ter cartas espelhadas, cantos arredondados e índices nos cantos; além disso, o nome da carta figurada mais baixa mudou de Knave (Kn) para Jack (J).
Referências
- ^ Wilkinson 1895: 67, 77; Needham 1962: 328–331.
- ^ Dummett 1980: 35.
- ^ Dummett 1980: 38.
- ^ Por exemplo, Needham 1962: 329; Dummett 1980: 34.
- ^ Agradecimentos a Adrian Kędzior pela ajuda com as fontes chinesas.
- ^ https://www.gutenberg.org/
cache/epub/25431/ .pg25431.html - ^ Lo 2000: 403, 406.
- ^ Dummett 1980: 40, n. 22; 41.
- ^ Dummett e Abu-Deeb 1973: 107.
- ^ Dummett e Abu-Deeb 1973: 107–108, 112; Dummett 1980: 39.
- ^ https://en.wikipedia.org/
wiki/ .Chinese_playing_cards# Money-suited_cards - ^ https://en.wikipedia.org/
wiki/ .Playing_card_suit# Origin_and_development_ of_the_Latin_suits - ^ Dummett 1980: 43–44, 57–64.
- ^ Denning 1996: 14.
- ^ Dummett e Abu-Deeb 1973: 113–114.
- ^ Denning 1996: 16.
- ^ https://www.wopc.co.uk/
spain/moorish/ .moorish-playing-cards - ^ Dummett 1980: 10; Denning 1996: 16.
- ^ Dummett 1980: 16–17.
- ^ Dummett 1980: 13.
- ^ Dummett 1980: 22–23.
- ^ Dummett 1980: 5–7.
- ^ Dummett 1980: 16, 22.
- ^ Dummett 1980: 5–8.
- ^ Dummett 1980: 27.
- ^ Dummett 1980: 23.
- ^ https://i-p-c-s.org/
pattern/ps-48.html . - ^ Dummett 1980: 11, 27, n. 36; Laird 2009: 290.
- ^ Dummett 1980: 11, 20, 27, n. 36; https://www.wopc.co.uk/
goodall/chas-goodall- ; https://www.wopc.co.uk/and-son-1820-1922 playing-cards/ .corner-indices - ^ https://www.wopc.co.uk/
goodall/chas-goodall- .and-son-1820-1922 - ^ https://
familytreemagazine.com/ .history/history-matters- playing-cards/ - ^ Laird 2009: 290; https://
www.etymonline.com/ ; https://en.wikipedia.org/word/jack wiki/Jack_(playing_card) . - ^ Laird 2009: 290.
Obras citadas
Benham, W. Gurney. Playing Cards: History of the Pack and Explanations of Its Many Secrets. London: Spring Books, 1931.
Denning, Trevor. The Playing-Cards of Spain: A Guide for Historians and Collectors. London: Cygnus Arts, 1996.
Dummett, Michael. The Game of Tarot: from Ferrara to Salt Lake City. London: Duckworth, 1980.
Dummett, Michael; Abu-Deeb, Kamal. “Some Remarks on Mamluk Playing Cards”. Journal of the Warburg and Courtauld Institutes, v. 36, 1973, p. 106–128.
Laird, Jay. “History of Playing Cards”. In: Carlisle, Rodney P. (org.). Encyclopedia of Play in Today’s Society. v. 1. Los Angeles: Sage Publications, 2009, p. 288–293.
Lo, Andrew. “The Game of Leaves: An Inquiry into the Origin of Chinese Playing Cards”. Bulletin of the School of Oriental and African Studies, v. 63, n. 3, 2000, p. 389–406.
Needham, Joseph. Science and Civilisation in China. v. 4: Physics and Physical Technology, pt. 1: Physics. Cambridge: Cambridge University Press, 1962.
Wilkinson, W. H. “Chinese Origin of Playing Cards”. American Anthropologist, v. A8, n. 1, 1895, p. 61–78.
Figuras
- Cartas do baralho padrão moderno: o rei e o 6 de paus.
- Dados de terracota de Mohenjo-daro (Paquistão), 2500–1900 a.C. Foto feita no Museu Ashmolean em Oxford, por Zunkir, imagem recortada. Wikimedia Commons, licença Attribution-Share Alike 4.0 International.
- A carta de papel chinesa mais antiga de Turfã (China), datada de cerca de 1400 d.C.; atualmente no Museu Etnológico de Berlim. Wikimedia Commons, domínio público.
- Dois fragmentos de cartas de jogar egípcias do Cairo (Egito), início do século XIII; atualmente no Museu de Arte de Dallas, Coleção Keir. © 2021, Museu de Arte de Dallas, objetos K.1.2014.1132 e K.1.2014.1133.
- Carta 6 de moedas, 10 de tacos de polo, 3 de taças e 7 de espadas do baralho mameluco egípcio, século XV; atualmente no Museu do Palácio de Topkapı, Istambul. Composição original por Countakeshi. Wikimedia Commons, licença Attribution-Share Alike 4.0 International.
- Cartas de naipes monetários chinesas, século XIX; atualmente no Museu Britânico. Licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike 4.0 International (CC BY-NC-SA 4.0). © The Trustees of the British Museum.
- As cartas europeias mais antigas da Catalunha, do início do século XV. Uma folha não recortada e sem cor de design árabe; atualmente no Instituto Municipal de História em Barcelona. Redesenho de Karolina Juszczyk a partir da ilustração em “Moorish playing cards” de Simon Wintle.
- Sota de moedas de um baralho catalão “mouro”, 1400–1420; atualmente no Museu Fournier de Cartas de Baralho, em Álava (Espanha). Wikimedia Commons, domínio público.
- Folha não recortada de cartas de naipes espanhóis, 1574. Publicado originalmente no Museu Espanhol de Antiguidades, volume 3, 1874. Wikimedia Commons, domínio público.
- O superior (Ober) do naipe de patos do baralho de caça de Stuttgart, 1429; atualmente no Museu Estadual de Württemberg, Stuttgart (Alemanha). Licença Creative Commons Attribution 4.0 International (CC BY 4.0). © Landesmuseum Württemberg, Stuttgart.
- O inferior (Unter) do naipe de bolotas de um baralho alemão, por volta de 1540–1560; atualmente no Museu Estadual de Württemberg, Stuttgart (Alemanha). Licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike 4.0 International (CC BY-NC-SA 4.0). © Deutsches Spielkartenmuseum, Leinfelden-Echterdingen.
- Evolução dos símbolos dos naipes do sistema alemão para o francês. Desenho de Karolina Juszczyk com o uso das imagens criadas por Infanf: folha, bolota, sino e coração, disponível em Wikimedia Commons, domínio público.
- Uma folha não recortada de cartas francesas, impressa em Rouen por Valery Faucil, por volta de 1516; atualmente no Museu Britânico. Licença Creative Commons Attribution-NonCommercial-ShareAlike 4.0 International (CC BY-NC-SA 4.0). © The Trustees of the British Museum.
- Rei de copas de um baralho de naipes franceses, produzido em Rouen por volta de 1567. Benham 1931: 28, fig. 59.
- Rei de copas de um baralho de naipes franceses, produzido na Inglaterra por volta de 1750. Benham 1931: 28, fig. 60.
- Rei de copas do baralho padrão moderno.


